A chegada de um comprimido à base de semaglutida para o tratamento da obesidade amplia as opções para pacientes que buscam emagrecer sem recorrer às aplicações. Mas, apesar da comodidade, a nova apresentação tem características que precisam ser consideradas na escolha do tratamento. Para o médico, pesquisador e professor Dr. Gabriel Almeida, a novidade representa um avanço, mas não significa o fim das canetas emagrecedoras.
A análise ocorre após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovar o Wegovy oral, primeira apresentação em comprimidos de um medicamento da classe GLP-1 autorizada no Brasil para o tratamento da obesidade. Para Gabriel, a nova opção atende a uma demanda de pacientes que procuram, além dos resultados, maior praticidade na rotina.
“Hoje, o paciente que busca um tratamento para perda de peso procura, além do resultado, a comodidade. As cápsulas vão trazer exatamente isso. Mas não são para todo mundo”, afirma.
Mais comodidade, mas com diferenças importantes Segundo Gabriel, uma das principais diferenças entre a semaglutida oral e as medicações injetáveis está na forma de administração. O comprimido precisa ser tomado diariamente, em jejum, com pequena quantidade de água e seguindo orientações específicas para garantir sua absorção.
Já as injeções mais modernas oferecem intervalos maiores entre as aplicações. Além das opções semanais, novas medicações estão sendo desenvolvidas para uso quinzenal e até mensal.
“Essa cápsula não pode ser utilizada a qualquer horário do dia. Tem que ser tomada em jejum, com pouca água, e obriga o uso diário. As injeções estão vindo para uso semanal, e novas medicações para aplicações quinzenais e até uma vez por mês”, explica.
Outro ponto destacado pelo médico é a diferença nos resultados de perda de peso. De acordo com ele, a semaglutida oral apresenta eficácia inferior à de algumas das medicações injetáveis mais modernas, o que reforça a importância de avaliar cada opção de forma individualizada.
Como o GLP-1 atua no emagrecimento Os medicamentos da classe GLP-1 atuam em mecanismos relacionados à fome e à saciedade. Segundo Gabriel, um dos efeitos é o retardo do esvaziamento gástrico, que contribui para prolongar a sensação de estômago cheio e reduzir a quantidade de alimentos consumida.
“Basicamente, o GLP-1 aumenta a saciedade. Com isso, a ingestão calórica diminui, porque o paciente não consegue comer os volumes de alimento que comia anteriormente”, explica.
O médico também chama atenção para outros efeitos observados em estudos com medicamentos dessa classe, como a redução do consumo de bebidas alcoólicas e a melhora do controle alimentar em determinados pacientes. Esses resultados, no entanto, devem ser interpretados conforme as evidências disponíveis para cada medicamento e não representam indicações automaticamente aprovadas para todas as apresentações.
Menos pensamentos sobre comida Outro aspecto que vem ganhando espaço nas discussões sobre o tratamento da obesidade é o chamado ruído alimentar — pensamentos persistentes sobre comida, mesmo quando a pessoa não está com fome.
Gabriel explica que medicamentos da classe GLP-1 podem ajudar a reduzir esse tipo de pensamento e o desejo intenso por alimentos altamente palatáveis, contribuindo para uma relação mais equilibrada com a alimentação.
“Esses medicamentos são conhecidos por diminuir aquele ruído alimentar, aquele pensamento que você tem sobre alimentos altamente palatáveis. Ele é minimizado com os medicamentos dessa classe”, afirma.
Para o médico, esse efeito pode ser relevante porque o tratamento da obesidade não envolve apenas a redução de calorias, mas também os mecanismos biológicos que influenciam a fome, a saciedade e o comportamento alimentar.
Mais uma alternativa no tratamento da obesidade Gabriel considera positiva a chegada da semaglutida oral por ampliar as possibilidades de tratamento, mas ressalta que a comodidade não deve ser o único critério na escolha do medicamento.
“É uma excelente iniciativa, mais uma medicação para o arsenal do combate à obesidade. Só que ainda é muito inferior às chamadas canetinhas emagrecedoras mais modernas”, conclui.
A nova apresentação foi aprovada para adultos com obesidade ou sobrepeso associado a pelo menos uma condição de saúde relacionada ao peso. A utilização deve ser combinada a uma alimentação com redução de calorias e à prática de atividade física, sempre com prescrição e acompanhamento médico.
A aprovação da Anvisa teve como base o estudo clínico de fase 3 OASIS 4, que acompanhou participantes durante 64 semanas e identificou perda média de peso superior a 13% entre aqueles que receberam semaglutida oral na dose de 25 mg. Os resultados não representam garantia de emagrecimento individual, e a resposta ao tratamento pode variar de acordo com as características de cada paciente.


