Conhecidas pelo uso no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, as chamadas canetas emagrecedoras estão despertando o interesse da comunidade científica por uma possível aplicação além do controle do peso: a redução do consumo de álcool. Estudos recentes investigam se medicamentos como a semaglutida e a liraglutida podem interferir nos mecanismos cerebrais associados ao desejo de beber e à sensação de recompensa.
O médico, pesquisador e professor Dr. Gabriel Almeida acompanha os avanços nessa área e destaca que os resultados iniciais ampliam as possibilidades de investigação sobre a ação desses medicamentos no organismo. A hipótese é que eles possam atuar em circuitos cerebrais relacionados ao prazer e à recompensa, reduzindo o impulso de continuar consumindo álcool.
“Uma das hipóteses é que essas medicações possam reduzir o impulso de continuar consumindo álcool, atuando nos mecanismos cerebrais ligados à recompensa”, explica Gabriel.
Estudos apontam redução no consumo excessivo
Entre os resultados que chamam a atenção dos pesquisadores está um estudo clínico publicado em 2024, que acompanhou 108 pessoas com transtorno por uso de álcool de moderado a grave durante 26 semanas. Os participantes que receberam semaglutida apresentaram uma redução de 41% nos dias de consumo excessivo de álcool, enquanto, no grupo que recebeu placebo, a diminuição foi de 26%.
Outra pesquisa, realizada com aproximadamente 600 mil veteranos das Forças Armadas dos Estados Unidos com diabetes tipo 2, identificou uma associação entre o uso de medicamentos dessa classe e um menor risco de desenvolver transtornos relacionados ao consumo de álcool e de outras substâncias. Por se tratar de uma associação observada nos dados, o resultado não comprova, isoladamente, que os medicamentos sejam responsáveis pela redução do risco.
Gbriel Almeida, os achados justificam o aprofundamento das investigações, especialmente para compreender quais pacientes poderiam se beneficiar, como essas substâncias atuariam sobre os comportamentos relacionados ao consumo de álcool e quais seriam os riscos envolvidos.
“Os dados são animadores, mas ainda precisamos de pesquisas mais robustas para entender quem pode se beneficiar, qual seria a melhor estratégia de tratamento e quais são os riscos envolvidos”, ressalta o médico.
Medicamentos ainda não são aprovados para tratar o alcoolismo
Apesar dos resultados iniciais, semaglutida e tirzepatida ainda não têm indicação aprovada especificamente para o tratamento da dependência alcoólica. As evidências disponíveis não permitem afirmar que essas medicações substituam as abordagens já utilizadas no cuidado de pessoas com transtorno por uso de álcool.
Gabriel alerta que os resultados científicos não devem ser interpretados como uma recomendação para iniciar o uso de canetas emagrecedoras com essa finalidade. A utilização desses medicamentos precisa considerar as indicações clínicas, os riscos e as necessidades individuais de cada paciente.
“Esses resultados não significam que a pessoa deva começar a usar uma caneta emagrecedora para tentar parar de beber. O tratamento precisa ser individualizado e acompanhado por um profissional de saúde”, orienta.
A investigação sobre a relação entre medicamentos à base de GLP-1 e comportamentos associados ao consumo de álcool continua em andamento. Novos ensaios clínicos deverão ajudar a esclarecer se esse possível efeito poderá, no futuro, contribuir para estratégias de tratamento da dependência.


