Expressões como “tá cheio da platita”, “caloi” e “garfo” eram usadas por políticos e empresários baianos para se referir, de forma cifrada, a supostos pagamentos de propina. As mensagens, obtidas pela Polícia Federal (PF) e reveladas pelo UOL, fazem parte da Operação Overclean, que investiga desvios de recursos públicos por meio das chamadas emendas Pix.
De acordo com a PF, os diálogos envolvem o empresário Evandro Baldino do Nascimento e Marcelo Chaves Gomes, assessor do deputado federal Félix Mendonça Júnior (PDT-BA). As mensagens mostram cobranças de valores, acertos de repasses e até negociações de contratos em cidades do interior da Bahia.
Códigos e cobranças
Nos trechos analisados, Marcelo utiliza termos como “platitas”, “laplatina”, “soldas” e “praguinhas” para se referir a dinheiro. Em uma das conversas, ele chega a pedir um Pix de R$ 20 mil a Evandro, que promete resolver no dia seguinte.
Em outro diálogo, Marcelo propõe um “bom negócio” envolvendo a contratação da namorada de Evandro, Patrícia Porfírio, no gabinete de Félix Mendonça. Segundo a PF, ela teria sido nomeada como funcionária fantasma, com salário de R$ 8,1 mil o que totalizaria cerca de R$ 390 mil durante o contrato.
Cidades baianas na mira
As cidades de Ibipitanga, Boquira e Paratinga aparecem nas trocas de mensagens. Em Ibipitanga, Félix Mendonça teria destinado R$ 9,1 milhões em emendas, sendo R$ 4,1 milhões via Pix, para contratação da empresa Ativa Projetos e Serviços, ligada a Evandro.
Em Boquira, Marcelo cobra um suposto repasse ao prefeito Alan França (PSB), afirmando que “o aniversário foi dia 11/08 e a Caloi não chegou”, em referência ao pagamento. O município havia recebido R$ 492 mil em emendas voltadas à assistência hospitalar.
Já em Paratinga, o ex-prefeito Marcel José Carneiro de Carvalho (PT) teria recebido R$ 100 mil, em setembro de 2024, por meio de um operador financeiro que, segundo a PF, movimentava grandes quantias de dinheiro vivo com origem suspeita.
“O chefe” e as viagens
Nos diálogos, os investigados se referem a Félix Mendonça com apelidos como “nosso amigo”, “o homem” e “o chefe”. Datas de supostos pagamentos coincidem com passagens do deputado por Salvador. Em uma das mensagens, Marcelo comenta que “o chefe” queria emprestado o avião de Evandro — aeronave que, segundo a PF, era frequentemente usada por Félix e também por Alex Parente, apontado como um dos líderes do esquema.
O que dizem os citados
O deputado Félix Mendonça Júnior negou envolvimento e afirmou que nunca tratou de emendas com Evandro Baldino. A defesa de Marcelo Chaves sustentou que ele é inocente e que as suspeitas serão “amplamente refutadas”. Já a defesa de Marcel Carneiro também negou qualquer irregularidade.
A Operação Overclean, que tramita sob relatoria do ministro Nunes Marques no Supremo Tribunal Federal (STF), segue em segredo de Justiça.


