Mais policiais militares da ativa tiraram a própria vida do que morreram em confrontos em serviço na Bahia em 2024. De acordo com o 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (24), foram registrados cinco suicídios de PMs no estado, contra duas mortes em ação – uma de um policial militar e outra de um policial civil.
Os dados escancaram uma realidade que contrasta com a imagem tradicional de risco associado apenas ao combate ao crime e expõem uma crise silenciosa: o abalo na saúde mental de profissionais da segurança pública.
Em 2023, a Bahia já havia registrado três suicídios entre policiais militares e nenhuma morte de civis ou PMs em serviço. Neste ano, além do aumento nos suicídios, houve também crescimento das mortes violentas fora do horário de trabalho: de oito para nove casos entre policiais militares, envolvendo confrontos ou lesões não naturais.
Segundo a Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), algumas medidas têm sido adotadas para enfrentar o problema, como a Portaria nº 070-CG/2025, que estabelece o afastamento e acompanhamento psicológico de policiais envolvidos em ocorrências com mortes por intervenção legal. A medida inclui ainda suporte jurídico, emocional e profissional aos agentes.
Mesmo com a elevação no número absoluto de casos, a taxa proporcional de suicídio entre policiais da ativa na Bahia se manteve em 0,1 por mil. Ainda assim, o crescimento percentual foi de 66,7%. Já as mortes em serviço representaram menos da metade desse número.

Ferida invisível
O relatório elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública destaca seis fatores que contribuem para esse cenário: assédio moral, pressão institucional por metas, endividamento, insegurança jurídica, desgaste mental constante e a cultura do “policial herói”, que mascara o sofrimento.
“Os policiais, principalmente os militares, não têm a opção de viver onde desejam, matricular seus filhos em escolas próximas ou frequentar livremente ambientes públicos. Por questões de segurança, acabam se isolando socialmente”, aponta um trecho do estudo.
O relatório ressalta que, além da exposição ao risco diário, os policiais convivem com uma rigidez institucional que gera desgaste contínuo físico, emocional e psicológico. Essa vulnerabilidade atinge não apenas os agentes, mas também seus familiares, criando um ciclo difícil de romper.
Especialistas defendem que a saúde mental dos policiais precisa ocupar lugar central nas políticas públicas de segurança. “Não se trata apenas de prevenção individual, mas de uma mudança estrutural na forma como os profissionais são acolhidos pelas instituições”, destaca o documento.
Cenário nacional
Apesar da redução de 137 para 126 suicídios entre policiais da ativa no Brasil entre 2023 e 2024 (queda de 8%), o número segue alto. A Bahia não está isolada.
O Paraná registrou 12 casos em 2024 o dobro do ano anterior. No Rio Grande do Sul, os suicídios aumentaram 33,3%, chegando a 16 casos. O Ceará dobrou os registros, passando de 5 para 10, elevando a taxa para 0,4 por mil.

Já São Paulo, estado com o maior efetivo policial do país, reduziu os casos de 39 para 17 queda de mais de 50%. Em contrapartida, o Distrito Federal passou de 1 para 5 suicídios, alta de 400%.
Proporcionalmente, o Acre lidera o ranking nacional com a maior taxa: 0,6 por mil policiais da ativa, mesmo com apenas dois registros absolutos.


