O número de pessoas desaparecidas no Brasil cresceu 4,9% em 2024, mas em alguns estados o aumento foi ainda mais expressivo. É o caso da Bahia, que teve alta de 14,8% nas ocorrências, saindo de 3.538 para 4.066 casos em um ano. O crescimento acende um alerta sobre a possível relação entre os desaparecimentos e a expansão silenciosa de facções criminosas e milícias.
Entre os casos mais emblemáticos está o dos jovens Paulo Daniel e Matusalém Lima, vistos pela última vez em novembro de 2024 no bairro de Pirajá, em Salvador. As investigações apontam para tortura, assassinato e ocultação dos corpos. O caso envolve um empresário e policiais militares, levantando uma questão incômoda: quantas histórias como essa permanecem encobertas?
A face oculta do crime organizado
Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os desaparecimentos podem ser consequência direta da atuação de facções e milícias, que executam vítimas e ocultam os corpos em cemitérios clandestinos.
O promotor Davi Gallo, do Ministério Público da Bahia (MP-BA), com 30 anos de experiência em investigações criminais, afirma que essa prática já é uma realidade. “Eles somem mesmo com os corpos. Fazem isso para não chamar atenção da polícia para o local”, explicou ao BNews.
Ele ainda aponta que métodos usados pelas facções são brutais: vítimas são queimadas em pneus a chamada “microondas” ou têm os corpos dissolvidos em ácido.
Perfil das vítimas e dias mais frequentes
O levantamento mostra que os desaparecidos são, em sua maioria, homens (62,8%), negros (54,3%) e jovens entre 15 e 29 anos (53,5%). Os dias com mais registros são entre sexta e domingo, o mesmo padrão das vítimas de homicídios.
Apesar do crescimento dos desaparecimentos, o número de pessoas localizadas cresceu apenas 4,7%, indo de 836 para 876 em 2024 um ritmo inferior à alta das ocorrências.
Racismo estrutural e ausência do Estado
Para o promotor, muitas mortes sequer entram nas estatísticas oficiais por causa da desorganização estatal e do racismo estrutural. “O Estado é desorganizado. A Polícia Militar e a Polícia Civil fazem um trabalho heroico com o pouco que têm. Mas a morte de negro e pobre continua sendo negligenciada”, afirma.
Facções crescem, mortes caem e desaparecimentos aumentam
O estudo chama atenção para o fato de que, em estados como Amapá, Sergipe e Bahia, houve uma redução nas mortes violentas intencionais, mas os desaparecimentos cresceram significativamente uma possível pista de que parte da violência está sendo “ocultada” nos números.
“Na Bahia, esse crescimento da atuação de facções é nítido. Mesmo com investimentos em segurança, o crime organizado avança”, destaca Gallo.
“Facções devem ser tratadas como terroristas”
O promotor defende mudanças duras no sistema penal. Para ele, facções já atuam como grupos terroristas: “Estão em todo lugar, com estrutura, armamento e dinheiro. A legislação é branda demais”, critica.
Ele também cobra que presos cumpram integralmente suas penas, sem progressão: “Cada detento custa mais de R$ 10 mil por mês. Muitos não produzem nada, e os presídios viraram escritórios do crime”.
Gallo ainda alerta para uma possível guerra entre facções no estado, com avanço de grupos como Comando Vermelho, PCC, TCP e Família do Norte. “O tráfico está dominando nossa região. A Força Aérea só serve para desfilar. A guerra está perdida? Ainda não. Mas precisa de vontade do Estado.”
O que diz a Segurança Pública
O BNews procurou Polícia Civil, Secretaria de Segurança Pública (SSP) e o Departamento de Polícia Técnica (DPT). Apenas SSP e DPT responderam.
A Polícia Civil foi questionada sobre a relação entre facções e desaparecimentos, existência de valas clandestinas e protocolos de atuação. A resposta recebida foi a sugestão de procurar a SSP.
Já a SSP informou que as forças de segurança atuam de forma integrada e que a Delegacia de Proteção à Pessoa é a responsável pelas investigações. A pasta destacou o uso do reconhecimento facial, que ajudou a localizar 26 pessoas, e o trabalho de divulgação em parceria com a imprensa.
O DPT disse que há integração com o banco nacional de desaparecidos desde 2012. Atualmente, o órgão possui 249 restos mortais não identificados e 471 perfis genéticos de familiares cadastrados, mas apenas 12 casos foram resolvidos 8 com banco estadual e 4 via banco nacional.


