Apesar de ser um dos bairros mais valorizados de Salvador, com localização estratégica e forte apelo comercial, a Pituba enfrenta um problema cada vez mais visível: o abandono de imóveis residenciais e comerciais. A situação afeta moradores, corretores de imóveis, empresários do setor gastronômico e até a sensação de segurança na região.
A reportagem do BNews entrou em contato com a Defesa Civil de Salvador (Codesal), que apontou apenas dois pontos oficialmente registrados: a antiga sede dos Correios, na Avenida Paulo VI, e um imóvel na Rua Cícero Simões, próximo ao Beco da Cultura, na divisa com o Nordeste de Amaralina — este último, segundo relatos de moradores, está abandonado há mais de uma década. Já a Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Urbanismo (Sedur) informou que não há mapeamento ou levantamento específico sobre o tema.
Embora os registros oficiais sejam escassos, o impacto do problema é visível e recorrente para quem vive ou trabalha no bairro. Thiago Leon, corretor e gestor da Leon Imóveis, relata que há uma evasão crescente de imóveis antigos, especialmente aqueles que não passaram por reformas. “Temos percebido uma certa evasão de imóveis mais antigos na Pituba, especialmente aqueles que não passaram por reformas ou atualizações”, afirmou.
Segundo ele, áreas próximas à escola Gurilândia, à delegacia da Pituba, à saída do Hospital da Bahia e ao Colégio Nossa Senhora da Luz concentram imóveis deteriorados e sem manutenção adequada, sobretudo nas fachadas. Ele cita ainda imóveis nos arredores do Colégio Integral, em frente ao Hortifruti e atrás da Avenida Paulo VI, que estão na mesma condição.
Boa parte desses imóveis, segundo Leon, está em processo de inventário ou enfrentando entraves burocráticos que impedem a venda. “A maioria está passando por um inventário, de uma mãe ou avó que morreu e os filhos não querem vender agora, ou que têm algum problema de documentação. O abandono não é porque ninguém quer vender ou porque teve algum problema, mas sim por questões burocráticas familiares”, explicou.
Apesar disso, o bairro continua entre os mais caros de Salvador. De acordo com o índice FipeZap, o preço do metro quadrado na capital baiana subiu 19,11% entre março de 2024 e fevereiro de 2025, e a Pituba ocupa a oitava posição no ranking, com valor médio de R$ 7.253 por m².
O perfil dos consumidores também mudou. “Hoje, o cliente busca imóveis mais compactos, funcionais e com infraestrutura moderna, como estúdios com coworking, academia, áreas de lazer e segurança 24 horas. Esses imóveis têm mais saída para locação do que para venda”, acrescenta o corretor.
O abandono também reflete diretamente no setor de bares e restaurantes da região. Leandro Menezes, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel-BA), afirma que o número de imóveis comerciais vazios tem prejudicado o faturamento dos empreendedores e contribuído para o esvaziamento de determinadas áreas da Pituba. “Isso impacta a segurança pública, porque quando há menos circulação de pessoas, a sensação de insegurança aumenta”, afirmou.
Menezes observa ainda que o setor tem enfrentado uma concentração de público em pontos específicos, como o Preto Bar, Boteco do Caranguejo, La Bottega e Tatu Bola. Em contrapartida, outras áreas estão cada vez mais esvaziadas. “Há uma mudança de eixo de consumo, somada à dificuldade de ocupação dos imóveis e ao alto preço dos aluguéis, o que leva muitos negócios a abrirem por pouco tempo ou nem sequer iniciarem as atividades”, pontuou.
Apesar dos desafios, Leon acredita que o bairro ainda se mantém entre os mais procurados para moradia e investimento. “A localização privilegiada, a estrutura comercial, os serviços e a mobilidade urbana ainda são grandes atrativos. O que temos visto é uma valorização dos empreendimentos novos e uma necessidade urgente de renovação dos mais antigos, para que eles consigam competir no mercado atual”, concluiu.


