O novo Terminal Rodoviário de Salvador será inaugurado nesta segunda-feira (19), mas o futuro da antiga estrutura, que ainda concentra diariamente milhares de pessoas, segue indefinido. Em meio às discussões sobre o destino do espaço, o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), afirmou que mudanças na legislação municipal em 2025 impactaram a Lei de Uso e Ocupação do Solo, tornando necessária uma projeção do mercado imobiliário para definir o valor de comercialização do terreno.
Diante da indefinição, surge a pergunta: quanto vale a antiga Rodoviária de Salvador e o que poderia ser feito no local?
Para responder a esses questionamentos, o BNews entrevistou a economista Alessandra Giovana Borges, especialista em Inteligência de Mercado e sócia da empresa Único Consultoria e Projetos.
Segundo a economista, não é possível estabelecer um valor exato para a antiga Rodoviária de Salvador neste momento. Isso porque se trata de um terreno de grande porte e de um ativo urbano complexo, cujo preço final depende de variáveis como metragem oficial, zoneamento, potencial construtivo e usos permitidos.
“Estamos falando de um terreno muito grande, localizado em um dos eixos mais valorizados da cidade, a Avenida Antônio Carlos Magalhães. O valor real só pode ser definido a partir de estudos técnicos, jurídicos e urbanísticos”, explicou.
Apesar disso, Alessandra aponta que é possível fazer uma estimativa com base nos valores praticados no mercado. Considerando uma área frequentemente citada em torno de 150 mil metros quadrados e o preço médio de terrenos na região, que gira em torno de R$ 4.500 por metro quadrado, o valor estimado do espaço ficaria entre R$ 600 milhões e R$ 700 milhões.
“É importante reforçar que se trata apenas de uma estimativa de mercado, não de uma avaliação oficial”, pontuou.
Sobre o futuro do terreno, a especialista destaca que qualquer definição depende, antes de tudo, das regras urbanísticas, do Plano Diretor e de questões jurídicas que ainda não estão consolidadas.
Ela lembra que, em 2021, o Governo da Bahia tentou autorizar a venda de grandes imóveis públicos, incluindo a antiga Rodoviária, o Detran e o Centro de Convenções. A proposta, que estimava arrecadar mais de R$ 700 milhões, acabou tendo a votação suspensa na Assembleia Legislativa por falta de informações detalhadas sobre os imóveis.
“O impasse mostrou que não existe, até hoje, um quadro jurídico definitivo para a alienação ou uso do terreno sem um plano urbanístico claro”, explicou.
Na época, entidades como o Instituto de Arquitetos do Brasil na Bahia (IAB-BA) e grupos acadêmicos defenderam que áreas dessa magnitude, localizadas em regiões centrais da cidade, precisam de planejamento detalhado para evitar decisões baseadas apenas no retorno financeiro imediato.
Considerando boas práticas de planejamento urbano, Alessandra aponta que o espaço tem potencial para projetos que tragam benefícios à cidade como um todo.
Entre as possibilidades estão:
Grandes áreas que deixam de cumprir sua função original podem ser transformadas em parques urbanos, áreas de convivência, espaços culturais ou serviços integrados, desde que haja diretrizes claras de uso.
A alternativa considerada mais equilibrada pela especialista é a implantação de empreendimentos de uso misto, reunindo habitação, comércio, serviços e escritórios. Esse modelo contribui para a vitalidade urbana e reduz a necessidade de grandes deslocamentos diários.
Exemplos internacionais, como a requalificação da frente portuária de Barcelona e das antigas docas de Lisboa, mostram como áreas extensas podem ser reintegradas à cidade por meio de planejamento estruturado.
Outro ponto essencial, segundo a economista, é a mobilidade urbana. Pela dimensão do terreno e pela localização em um dos principais eixos viários de Salvador, qualquer projeto deve priorizar a integração com o transporte coletivo, a circulação de pedestres e ciclistas e a organização do tráfego.
“O planejamento precisa reduzir a dependência do automóvel e evitar sobrecarga no sistema viário do entorno”, destacou.


