Se hoje uma viagem é publicada em tempo real, uma opinião pode viralizar em poucos minutos e cada foto pode ser acompanhada por centenas de curtidas, houve um tempo em que a vida virtual era bem diferente. Não existiam Instagram, TikTok, stories ou reels. O celular ainda não acompanhava cada passo do usuário. Para milhões de brasileiros, o lugar onde a vida social acontecia na internet tinha um nome: Orkut.
Criada em janeiro de 2004 pelo engenheiro turco Orkut Büyükkökten, então funcionário do Google, a rede social rapidamente conquistou um de seus maiores públicos no Brasil. O que começou como um projeto experimental para conectar pessoas se transformou em um dos maiores fenômenos da internet brasileira nos anos 2000.
Para entender a dimensão daquele sucesso, é preciso voltar a uma época em que entrar na internet não significava estar conectado o tempo inteiro.
Os computadores eram o principal meio de acesso às redes. Smartphones ainda não dominavam a rotina e publicar uma foto não era algo feito em segundos. Muitas vezes, era preciso esperar chegar em casa, ligar o computador e transferir as imagens de uma câmera digital.
No Orkut, não existia a lógica atual de publicar constantemente para uma audiência. O usuário tinha um perfil, colocava algumas fotos, preenchia informações sobre seus gostos e participava de comunidades. E era justamente ali que boa parte da experiência acontecia.
Comunidades
As comunidades eram uma das grandes marcas do Orkut. Funcionavam como fóruns em que pessoas com interesses em comum podiam conversar, brincar, discutir e compartilhar histórias. Havia comunidades para praticamente tudo.
Times de futebol, artistas, séries, filmes e bandas dividiam espaço com grupos de humor e situações extremamente específicas do cotidiano. Algumas chegaram a reunir milhões de integrantes. Eu Odeio Acordar Cedo, por exemplo, ultrapassou 6 milhões de membros.
Não era preciso produzir vídeos, criar memes elaborados ou fazer dancinhas para chamar atenção. Bastava encontrar uma frase que representasse sua personalidade e entrar para o grupo.
Os recados deixados nos perfis faziam parte da rotina de quem utilizava a rede. Quanto mais bonito e carinhoso o texto, melhor.

Uma época sem filtros, influencers ou algoritmos
Talvez uma das maiores diferenças entre o Orkut e as redes sociais atuais estivesse na forma como as pessoas se apresentavam. Não havia necessidade de publicar diariamente. Tampouco existia a preocupação constante com alcance, engajamento, número de seguidores ou algoritmo.
O perfil funcionava quase como um retrato da personalidade. Livros preferidos, filmes, músicas, comunidades e frases ajudavam a mostrar quem aquela pessoa era. As fotografias eram poucas e, justamente por isso, muitas vezes tinham mais significado.
Uma viagem poderia acontecer sem uma única publicação durante o percurso. Um aniversário poderia ser vivido sem uma sequência de stories. Uma festa poderia terminar sem que cada momento tivesse sido registrado.
Início do fim
O reinado do Orkut começou a ser ameaçado na virada da década de 2010.
O Facebook ganhou força no Brasil e, em setembro de 2011, ultrapassou o Orkut em número de usuários no país, segundo dados do Ibope. No mesmo ano, o Google lançou o Google+, apostando em uma nova plataforma social.
A migração aconteceu aos poucos. Os scraps começaram a diminuir, comunidades foram abandonadas e os usuários passaram a concentrar suas atividades em outras redes. Ao mesmo tempo, a internet se tornava cada vez mais móvel, visual e instantânea.
Em 30 de junho de 2014, o Google anunciou oficialmente o encerramento do Orkut. A empresa informou que outras plataformas do grupo, como YouTube e Google+, haviam crescido mais e que, por isso, concentraria seus esforços e recursos nelas.
Depois de dez anos no ar, o Orkut foi oficialmente desativado em 30 de setembro de 2014. Era o fim de um espaço que, para muitos brasileiros, havia sido a porta de entrada para a vida social na internet.
Talvez por isso o Orkut permaneça tão presente na memória.
Ele pertenceu a uma internet em que não era necessário mostrar tudo. Não havia a obrigação de transformar cada experiência em conteúdo, nem de provar que estava viajando, trabalhando, se divertindo ou vivendo uma vida perfeita.
O Orkut acabou em 2014. Mas a geração que cresceu entre scraps, depoimentos e comunidades ainda carrega a lembrança de uma época em que estar conectado parecia mais simples, e, talvez justamente por isso, mais especial.


