Às margens da Baía de Todos os Santos, o bairro de Paripe, no Subúrbio Ferroviário de Salvador, é visto pelos próprios moradores como um retrato do abandono. A região, que guarda parte importante da história da capital baiana, convive hoje com ruas deterioradas, imóveis em ruínas e falhas nos serviços básicos — como o abastecimento de água e a rede de esgoto.
Apesar de sua relevância, Paripe parece ter ficado à margem do desenvolvimento urbano. Até o século XVIII, a localidade não fazia parte oficialmente de Salvador, sendo incorporada apenas com a expansão da linha férrea, que transformou o antigo povoado em bairro. Ao longo dos anos, o crescimento populacional não veio acompanhado de melhorias estruturais, e os problemas se acumularam.
Terminal abandonado e fábrica em ruínas
Entre os exemplos citados pelos moradores está o Terminal Marítimo de São Tomé de Paripe, desativado desde 2016. A moradora Lorrane Leal descreve o espaço como um dos símbolos do descaso:
“A estrutura está comprometida, sem manutenção. É uma ponte perigosa, e o pior: é o principal elo entre Paripe e a Ilha de Maré”, lamenta.
Outro ponto que causa preocupação é a antiga Fábrica de Cimento Aratu, também conhecida como Cocisa, localizada entre as praias de Tubarão e São Tomé de Paripe. Construída no início do século XX e desativada na década de 1980, a estrutura segue em ruínas e representa risco à vizinhança.
“Já houve desabamentos e até mortes por conta do abandono. É um perigo constante”, conta Lorrane.
Falta d’água constante
O desabastecimento também é uma realidade que afeta diversas partes do bairro, principalmente nas regiões de Canaã, Barro Amarelo e Gameleira.
“A Embasa corta o fornecimento praticamente todos os dias. É desesperador”, reclama Lorrane.
A moradora Naiane Stone reforça a queixa:
“O bairro sofre muito com a falta de água, e o problema piora nos dias quentes. É uma rotina que ninguém aguenta mais.”
Em nota, a Embasa informou que vai apurar possíveis ocorrências na rede local e, se necessário, enviará uma equipe técnica para inspecionar o sistema de abastecimento.
Buracos e alagamentos
Além da escassez de água, os moradores enfrentam ruas esburacadas e alagamentos frequentes. A situação é mais crítica na Estrada da Base, Estrada da Cocisa e na Estrada do Cemitério.
“Quando chove, as ruas ficam intransitáveis. É lama, água e buraco por todo lado”, descreve Naiane.
Para Suzana Elen, o descuido é revoltante:
“Os buracos causam acidentes, danificam os carros e o mau cheiro do esgoto é insuportável. Falta cuidado e responsabilidade com quem mora aqui.”
Disputa por responsabilidades
Procurada, a Secretaria Municipal de Manutenção da Cidade (Seman) informou que suas equipes atuam apenas em vias estruturadas. Quando há necessidade de recapeamento completo, a responsabilidade é da Sucop ou da Secretaria de Infraestrutura do Estado (Seinfra).
A Sucop afirmou que vai avaliar as demandas relatadas. A Seinfra, até o momento, não respondeu aos questionamentos.
Saneamento precário e trânsito perigoso
Outro ponto criticado pelos moradores é o escoamento irregular do esgoto, que chega a desaguar no mar.
“A praia poderia ser muito melhor aproveitada se houvesse cuidado com o saneamento”, aponta Naiane.
Ela também lembra que a falta de sinalização viária já provocou diversos acidentes.
“Durante muito tempo, não havia semáforos na entrada do bairro. Só depois de muita insistência é que instalaram, mas ainda falta atenção.”
“Paripe precisa ser visto”
Para quem vive no bairro, a sensação é de abandono e esquecimento.
“Parece que Paripe ficou de fora do mapa da cidade. É um lugar com história, com potencial, mas que precisa ser olhado com mais carinho e investimento”, conclui Naiane.


